Depois de revelarmos as características decorativas que estarão em tendência durante este ano de 2024 (ver post anterior), deparamo-nos com uma reflexão: será que trazer influenças asiáticas para o nosso lar, é na realidade mais uma moda do que outra coisa qualquer, ou será que é mesmo uma tendência intemporal? Um questionamento compreensível por parte de quem gosta dessas influências, mas que não quer ter que redecorar o seu espaço num futuro próximo por ter caído em desuso.
Para podermos responder a essa questão, uma viagem pela história da influença oriental na decoração de interiores europeia, torna-se numa necessidade, assim como numa mais valia, porque no fim, irá melhor perceber a simbiose existente entre viagens, decoração e gastronomia – temas esses da Sanperio by Isabel – dando-lhe confiança para criar espaços ecléticos, cheios de personalidade e únicos como você. Leia a sua interessantíssima história, que não pode ficar desconhecida, sobretudo por parte dos portugueses, e esclareça as suas dúvidas.
Breve História da influência oriental na decoração de interiores europeia
O interesse dos europeus pelo oriente, já existe há muito tempo: na altura da antiguidade greco-romana, o interesse nasce pelas suas especiarias e no início do século 13, a Républica de Veneza domina as rotas comerciais terrestes até ao oriente trazendo não somente especiarias, mas também seda e vidro. No século 15, o império Otomano surge e o acesso terreste complica-se pelo que encontrar um caminho marítimo até à China torna-se numa necessidade europeia. Em 1516, o navegador português Rafael Perestrelo, consegue o feito desembarcando na costa continental Chinesa [0] – era simplesmente o primeiro explorador europeu a o conseguir. No ano seguinte, Portugal celebra um acordo comercial com a China e um intercambio cultural floresce com a troca de vários produtos coloniais; e.g., a pimenta-malagueta trazida pelos Portugueses da América Latina é trocada pela fina porcelana Chinesa que não somente muda a forma de estar à mesa dos europeus, mas também muda para sempre a culinária asiática que de hoje em dia, não consegue ser legitima sem uma boa dose de malaguetas. Para além da porcelana, os Portugueses trazem para o continente Europeu vários outros elementos decorativos; i.e., mobiliário oriental, madeiras exóticas, sedas, tecidos preciosos, bordados japoneses, olarias, prataria, chá [1] etc. Estes últimos, acabam nos interiores dos palácios reais europeus da época trazendo um exotismo sinónimo de luxo aos espaços das nobres casas europeias. Graças às expedições portuguesas, as culturas europeias abraçam cada vez mais o design e os hábitos orientais tornando-os seus. De facto, não podemos esquecer que foi pelas mãos da rainha Catarina de Bragança, esposa do rei Carlos II e Rainha Consorte da Inglaterra, Escócia e Irlanda de 1662 a 1685, que o uso de talheres e de pratos de fina porcelana se introduzem à mesa dos ingleses, assim como o consumo da geleia de laranja e do hábito do tabaco e do chá [3]. É verdade, um hábito tão inglês, que até nos custa a acreditar que tanto o chá, como as suas finas chávenas de porcelana, tiveram na verdade origem europeia portuguesa. Relativamente à geleia de laranja, já era de se esperar, porque foram também os portugueses que no século 16 introduziram na Europa a laranja doce vinda da China onde as laranjeiras começaram a também compor os jardins do sul da Europa. Esse intercambio cultural ainda se encontra marcado, não somente na europa, mas também no meio oriente, pela simples forma como os diversos povos chamam tanto o fruto como o país que inicialmente as comercializou; e.g., em Árabe, laranja e Portugal diz-se “bortuqal”; em Farsi (persa), “porteqal” e em Grego, “portokáli”, entre tantos outros idiomas [4].
No século 18, o gosto pelos elementos orientais perduraram e toda a Europa olha agora para a Ásia com admiração: Após várias tentativas, os europeus conseguem finalmente produzir a primeira porcelana ao nível da qualidade da porcelana chinesa [5], em 1708 na Alemanha, e alguns anos depois, o estilo rococó francês, conforme podemos apreciar no palácio de Queluz em Lisboa, abraça a tendência francesa de “chinoiserie” pintando paredes com cenas pitorescas asiáticas e incorporando móveis e tecidos feitos na europa, mas com inspirações asiáticas, para complementar o opulento e alegre estilo vigente com fantasia. A revolução industrial dá-se em 1760 e o estilo rococó com suas “chinoiseries” começa a esvanecer-se deixando lugar ao estilo do movimento racional neoclássico de influença greco-romana. Contudo, alguns anos depois, a rigidez do neoclassicismo é contraposta por outra corrente: o estilo do movimento liberalista romântico que com ecletismo traz de novo a natureza e as “chinoiseries” para dentro das casas dos aristocratas revolucionários que puseram fim à monarquia francêsa. Assim sendo, durante a primeira metade do século 19, o papel de parede florido de ramagens asiáticas forra as paredes das casas de campo dos ingleses que rapidamente compõe o estilo vigente decorativo inglês, e na segunda metade desse mesmo século, o estilo oriental redireciona-se para o estilo Japonês que até então se encontrava fechado para o mundo [6]. No século 20, as tendências vanguardistas e modernistas se estabelecem inspirando-se, entre outros, na filosofia minimalista japonesa que preza a essência dos elementos e elimina o supérfluo [7].
Atualmente, os espaços modernistas reinterpretam o ideal zen da filosofia Japonesa: o belo é dito como imperfeito, impermanente e incompleto; como as magnólias em flor que rodeiam os templos budistas, onde no início de cada ano, transbordam de beleza florescendo seus ramos imperfeitos, por um curto prazo de tempo, despidos de suas folhas – uma analogia perfeita que em muito nos ensina que nem sempre o que é novo é belo, já que mais antigas forem as magnólias, mais belas se tornam. Uma filosofia que pode não agradar aos mais superficiais, onde a essência das coisas é menosprezada, mas que os movimentos sustentáveis têm trazido para a decoração de interiores. De facto, em tendências atuais como o Japandi e o Wabi-sabi (uma tendência decorativa modernista como o Japandi, mas que se veste com cores mais escuras e com elementos mais toscos e rústicos) decoram seus espaços zen com; e.g., vasos toscos, cerâmicas com um acabamento craquelado ou partidas e rejuntadas com ouro, tecidos com um aspeto gastos etc.
Entendendo essa filosofia, será-lhe agora mais fácil perceber porquê que as cores esbatidas e os materiais texturados estam tanto em voga, pelo que agora, mais facilmente conseguirá formar um espaço decorativamente coeso com influenças orientais, em qualquer estilo ou tendência, porque conhecer a origem de uma influença decorativa, e como ela se apresenta ao longo da sua história, é necessário para conseguirmos a incluir nos nossos projetos decorativos. Como podem ver, a decoração é muito mais do que um simples conjugar de cores, mas sim, uma forma de melhorar, não somente a funcionalidade e a estética de um espaço, mas também, melhorar a qualidade psíquica das pessoas através da construção de ambientes que contam histórias.
Reflexão
Analisando o passado recente, lembramo-nos das paredes floridas das nossas avós abrindo-se, com uma pequena janela, para um quintal cheio de laranjeiras, das cerâmicas e porcelanas dos nossos pais com desenhos orientais que em dias de festa enfeitam suas mesas, assim como dos painéis ripados de madeira a contraporem as curvas de um bonsai satisfazendo o gosto dos mais novos. De facto, as inspirações orientais existem desde sempre tornando-as de facto intemporais; de uma forma mais ou menos expressiva, transcende estilos e une gerações pelo sentido de leveza e escapismo que elas conferem, porque afinal, não será essa uma das necessidades da mente humana?
Referências:
[0] Era dos Descobrimentos. Acedido em: 23, Janeiro, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Era_dos_Descobrimentos
[1] Produtos e Riquezas dos Descobrimentos. Acedido em: 23, Janeiro, 2024, em: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$produtos-e-riquezas-dos-descobrimentos
[3] Catarina de Bragança. Acedido em: 23, Janeiro, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Catarina_de_Bragan%C3%A7a
[4] Sabia que Portugal é um nome de um fruto em muitas línguas?. Acedido em: 24, Janeiro, 2024, em:https://www.vortexmag.net/sabia-que-portugal-e-um-nome-de-um-fruto-em-muitas-linguas/
[5] Porcelana. Acedido em: 23, Janeiro, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Porcelana
[6] The History of Chinoiseries in France, Part 3. Acedido em: 24, Janeiro, 2024, em: https://www.classicist.org/articles/the-history-of-chinoiseries-in-france-part-3/
[7] Arquitetura minimalista: saiba o que é e como aplicar. Acedido em: 25, Janeiro, 2024, em: https://blog.archtrends.com/arquitetura-minimalista-saiba-o-que-e-e-como-aplicar/
Créditos:
Texto e estudo feito pela Sanperio by Isabel.
Foto de destaque de uma Magnólia tirada por HeungSoon

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