Fitas coloridas e manjericos enfeitam mercados e largos onde um cheiro a sardinha invade ruas de festejos, enquanto pensamentos filosóficos surgem em algumas mentes: mas quem terá sido o homem por detrás do Santo que se festeja? Quais terão sido as suas lutas internas? Em busca de respostas, envergamos em véspera de Dia de Santos António, numa viagem até à Igreja de Santo António dos Olivais em Coimbra, por ali ter completado os seus estudos trocando, não somente o seu rico hábito Agostiniano por um simples da ordem Franciscana, assim como o seu nome. Porquê que tudo isso aconteceu, é o que iremos neste artigo divulgar, após termos conversado com um Jovem Frei Franciscano Conventual que não somente nos elucidou, mas também teve a gentileza de mostrar-nos o património que se esconde por detrás da simples fachada desta igreja que hoje, com fotos, também partilhamos.
Chegada à Igreja de Santo António dos Olivais em Coimbra
Chegando ao local, um pórtico de 3 arcos suscita-lhe a curiosidade em conhecer essa igreja que vislumbra no topo de uma escadaria setecentista ladeada por 6 capelinhas que acompanham o visitante na sua subida. Depois de vencer a sua escadaria, como que para alcançar o entendimento, uma simples e sóbria fachada, dissonante da monumentalidade da sua subida, o recebe transmitindo o primeiro pilar da ordem franciscana: o desprendimento dos bens materiais. Ao entrar, sente-se acolhido pelo baixo pé direito em forma de abóboda que seu átrio possui, onde uma bonita estátua de Santo António se ergue no seu centro como para o convidar a entrar, relembrando-lhe que é franciscano pelo seu hábito e afresco que no teto identifica.
Do seu lado direito, encontra uma capelinha dedicada à Nossa Senhora das Dores, onde avista um Frei Franciscano Conventual pelas frestas do seu gradeamento: um jovem, vestido com um hábito castanho e um lenço roxo encontra-se sentado em frente a uma secretária de estilo gótico, a abrir um tablet, rodeado de arte sacra, enquanto que espera pelos fiéis que desejam confessar-se. O cenário o impressiona…nunca tinha pensado encontrar no alto desta colina, e logo ao entrar, alguém pronto para o ajudar com uma atitude aparentemente atual. Entusiasmado, abre timidamente a porta desse confessionário temporário, e com gentileza, o Frei Franciscano o convida a sentar-se. Uma conversa inicia-se, e uma fascinante história se desenrola mostrando que, apesar de já ter passado mais de 800 anos, os desafios pessoais encarados por Santo António, permanecem mais atuais do que nunca.
Contexto e História do Santo António com a interpretação de um Frei Franciscano
Desde o começo da nacionalidade portuguesa, que existe no alto da colina dos Olivais (onde hoje se encontra a Igreja de Santo António dos Olivais em Coimbra), um templo de invocação a um Santo [1]. Contudo, a capela que outrora ali se erguia, era pela devoção ao Santo Antão: um Santo nascido em 251, no Egipto, que se tornou no primeiro monge eremita [2]. O local, era naquela altura, perfeito para evocar esse Santo, já que se encontrava fora da cidade e isolado pela natureza envolvente, que hoje é tomada pela cidade de Coimbra que até ela cresceu.
Em 1195 [3], Fernando Martins de Bulhões, mais tarde conhecido por Santo António, nasce perto da Catedral de Lisboa, onde está hoje a Igreja de Santo António de Lisboa, de ricos comerciantes portugueses [4]. Aos 15 anos, pede aos pais que o deixasse entrar para o mosteiro Agostiniano de São Vicente de fora, devido à mediocridade moral, à superficialidade e à corrupção que sente da sociedade em que vive. Com a aprovação dos pais, animado vai então viver para um mundo idílico – o ideal do evangelho – entre os Agostinianos. Contudo, findo 2 anos, já noviço, começa a sentir-se incomodado com as contínuas visitas dos amigos e pede para ser transferido. Assim, aos 17 anos, faz uma longa viagem até à então capital de Portugal, Coimbra, onde dedica-se ao estudo das ciências humanas e teológicas durante os 8 anos seguintes com professores talentosos e uma biblioteca rica e atualizada no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra [3].
Enquanto Fernando completava os seus estudos, uma ordem recém-constituída na atual Itália, chega a Portugal: a ordem mendicante dos Frades Menores, fundada por São Francisco de Assis. A esposa do terceiro rei de Portugal, D. Urraca de Castela, cede então a capela de Santo Antão a esses recém-chegados frades franciscanos, que ali precariamente se instalam em 1217-1218 [1]. Em 1219, vem ali pousar o Frei Otto com quatro dos seus companheiros franciscanos na missão de seguir para Marrocos com o intuito de evangelizar os Marroquinos. Contudo, mal recebidos em Marrocos, acabam por ser barbaramente martirizados pelo sultão AbuJacub.
Em 1220, Fernando é ordenado sacerdote com 25 anos de idade, no opulento Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, com boas perspetivas de evoluir na sua carreira; podendo um dia se tornar Bispo ou até Cardeal. Um dia, por influência do Infante D. Pedro, filho do segundo rei de Portugal, chegam ao Mosteiro, as relíquias dos cinco frades franciscanos martirizados em Marrocos para ali serem elevados à condição de Mártires. Esse episódio, leva Fernando a se questionar: como é que simples frades, sem ricas vestes, formação e até perspetivas de carreira, conseguem tais honras? Como fazem eles para viver? Quando, não sendo eles financiados pela coroa, têm que viver de esmolas para sustentarem-se, onde a única força motriz, é a sua nova linha de pensamento, que tanto consegue alcançar … Naquele instante, Fernando sente-se irresistivelmente atraído por essa ordem desejando como eles, também se tornar missionário e mártir. Assim, deixa o opulento mosteiro de Santa Cruz, para ir viver no pobre hospício dos Olivais (trocando o hábito de murça branca de cónego regrante de Santo Agostinho pelo burel castanho franciscano) e muda o seu nome de batismo – Fernando – para o de António, em honra ao padroeiro Santo Antão da capela dos Olivais. Em julho desse mesmo ano, parte entusiasmado para Marrocos cheio de ambições heroicas [1].
Desembarca em Marrocos, mas uma persistente doença obriga-o a tristemente voltar para Portugal. Durante a sua viagem de regresso, o navio que do norte de África vinha para Lisboa, é desviado por uma violenta tempestade para as costas da Sicília, na Itália. Pelo menos, assim reza a história, contudo, alguns estudiosos desvendam outra teoria já que a distancia entre o norte de Africa e a Sicília, é muito grande para um navio, por acaso, naufragar. Sobretudo, num país onde o próprio, desejava tanto ir para se encontrar com São Francisco de Assis. A essa teoria, também se soma a possibilidade de ele se ter sentido tão desolado, em não ter conseguido alcançar as suas ambições, e envergonhado, de voltar para seus colegas que lhe tinham demovido de tal mudança de vida, que permanece em Itália. Não sabemos ao certo o que aconteceu, nem o que realmente sentiu, mas pensando naquele talentoso jovem, que tudo deu por um sonho naufragado, acabando num país desconhecido, onde a vida o leva a inicialmente estar num simples eremitério em Montepaolo, no norte da Itália, com as simples responsabilidades de presidir à missa e ajudar os seus irmãos franciscanos nos trabalhos domésticos, deve ter sido terrível…sobretudo para alguém que, como ele, tinha durante tantos anos estudado. A sua oportunidade em se recompor, só surge dois anos depois, quando um superior, durante uma cerimónia de ordenação sacerdotal, convida um dos franciscanos presentes a subir ao púlpito para algumas palavras dizer. O desafio inesperado, tomou os presentes de tanta vergonha, que todos se recusaram ao improviso, à exceção do então António, que o agarrou com mestria: revelou-se um tão bom orador, que no fim, passou de lavar pratos, para pregador oficial da Ordem. A partir de aí, pregou tanto no norte de Itália como no sul de França, e segundo algumas fontes, o próprio São Francisco de Assis, o incumbiu das funções de diretor de estudos e professor de teologia; foi assim que em Bolonha, fundou e dirigiu a primeira escola da Ordem Franciscana [4].
Pelo caminho, ouviu entre outros, os lamentos dos trabalhadores que não recebiam de seus patrões. A sua competência comunicativa, o levou a então falar com os empresários da época para os incentivar a pagar – relembramos que na época medieval, muitos deles, trabalhavam só por comida. E em tempos que ninguém o cria ouvir, foi criativo, encontrando outras formas de fazer o seu trabalho: imagine-se num desanimado comerciante, a virar-se para o mar e a dizer em voz alta o seu discurso comercial? Todos os presentes, certamente o chamariam de louco, mas foi o que Santo António fez, quando se virou para o mar a pedir que os peixes fossem doravante gratos por viverem onde vivem; com um mar que lhes dá alimento e os protege das tempestades… É verdade que o episódio se tornou num milagre, entre muitos que fez, por os peixes terem vindo de facto ter com ele, mas focando-nos na sua criatividade e coragem, sem medo de ser julgado, é inspirador. Não acha?
Relativamente à sua duração de vida, coisa que todos nós desejamos que seja longeva, apesar de todas as suas realizações, ela foi curta: faleceu jovem, aos 36 anos de idade, acometido por uma doença onde pediu para morrer em Pádua, na Itália. Um ano depois da sua morte, é canonizado santo, e a capelinha de Santo Antão no monte dos Olivais, renomeia-se com o nome que hoje se intitula.
O seu grande dom, era de facto a eloquência com a qual fazia a eucaristia e pregava, podendo mudar o coração de milhares, e através dela, também fazer milagres. O seu dom, era muito mais do que uma simples competência, era divino, tanto que, findo 793 anos, a sua língua e cordas vocais, continuam incorruptas, intactas, tendo sobrevivido à decomposição do seu restante corpo. Hoje, o seu aparelho vocal encontra-se exposto na Basílica de Santo Antônio de Pádua, na Itália, erguida em seu nome entre 1234 e 1310, onde os seus restos mortais encontram-se guardados e seu aparelho vocal, exposto em relicários dourados, para os fiéis poderem presenciar a sua divindade e por ela rezar.
Como homem, acreditamos que no final se tenha sentido realizado, por ter conseguido ser muito mais do que o missionário e mártir que desejava: várias igrejas e basílicas foram em seu nome erguidas, dias em sua honra celebrados e várias orações, com seu nome rezadas. O todo é merecido, foi um homem que teve a coragem de se levantar, apesar de naquele momento em que se deu com a costa da Sicília, ter-se certamente sentido perdido, executando tarefas muito aquém das suas competências, mas que mesmo assim, não desistiu, deixando-se guiar pela fé e confiando nos seus desígnios, para que hoje o pudéssemos mais uma vez o celebrar com todo o seu esplendor. Viva o Santo António!
Fotos da nossa visita à igreja de Santo António dos Olivais em Coimbra













Foto da nossa visita à Basílica de Santo António de Pádua

Referências:
[1] Igreja – Convento de Santo António dos Olivais. Acedido em: 12, Junho, 2024, em: https://santoantonioolivais.pt/o-santo/santuario/?doing_wp_cron=1718110994.6386749744415283203125
[2] Antão, o Grande. Acedido em: 12, Junho, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%A3o,_o_Grande
[3] Santo Antônio de Pádua, o doutor evangélico. Acedido em: 12, Junho, 2024, em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2018-06/santo-antonio.html
[4] António, o mais popular de todos os santos. Acedido em: 13, Junho, 2024, em: https://www.snpcultura.org/antonio_o_mais_popular_de_todos_os_santos.html
Créditos:
Texto e fotos de autoria própria – tiradas durante a nossa visita à Igreja de Santo António dos Olivais em Coimbra e à Basílica de Santo António em Pádua.
Agradecimentos:
Obrigada ao Frei Franciscano Marius, que teve a capacidade de dar-nos a conhecer e suscitar-nos o interesse pela vida fascinante desse homem que se tornou no Santo António.

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