Escolher um destino de férias para este mês de tempo incerto, poderá ser um desafio, sobretudo para os mais aventureiros, atraídos pela descoberta de lugares ainda não visitados por estes. Nesse contexto, hoje sugerimos um passeio que muitas vezes cai no esquecimento, mas que ao nosso ver, merece uma visita por preencher a alma de seus viajantes: que tal conhecer um lugar diferente, apreciar a sua arquitetura, conhecer a sua história, apanhar um ferry boat e deixar-se navegar pela sua fauna, para por fim, desembarcar numa ilha sem estradas, mas com uma praia magnífica? Se o convite lhe for apetecível, saiba que ele é alcançável, sobretudo por quem já se encontre de férias na costa Algarvia e que queira passar um dia diferente.
Este destino no sotavento Algarvio, entre Faro e Tavira, é a capital da Ria Formosa. Sim, estamos a falar da cidade de Olhão e da sua ilha, ilha da Armona, onde após envergar numa viagem pela sua Ria, descobre um pequeno paraíso de águas rasas. Até lá, deixe-se transportar pela escrita até esse destino que agradará aos amantes da arquitetura, história e natureza.
Passeio por Olhão
Estando à espera de encontrar casas de pescadores feitas em madeira, como é comum se ver pelas terras piscatórias da zona centro, é surpreendido por um interessante edificado com uma arquitetura singular. De facto, na sua marginal, uma linda avenida, ladeada de um lado por um edificado recuperado do século XVIII [1] a XX, encontra-se virado para um jardim que regista, nos seus bancos forrados a azulejo, as conquistas notáveis do seu povo, que não somente compõem a sua história, como também embeleza a vista da ria que vislumbra – chegou à Av. 5 de Outubro.
Depois de estacionar a oeste desse avenida, enverga a pé por uma das suas ruas afluentes, onde um conjunto de casas de arquitetura dita “cubista” (casa com uma açoteia; i.e., de estilo mourisco e coberta por um terraço em vez de um telhado) indicam o início da zona histórica da cidade constituída pelos Bairros da Barreta e do Levante. Por suas singelas ruas e becos, descobre a arquitetura típica da região, assim como o seu rico imaginário lendário, que ali fez erguer estátuas que as relembram.
Ansioso para conhecer o mercado municipal da cidade, que seduz pelo seu estilo modernista, volta à avenida onde estacionou; revestido a tijolo, a sua rica cor avermelhada o faz destacar da envolvência, e seus cantos embelezados por torreões circulares envidraçados, confere-lhe o charme que lhe dá a vontade de o conhecer. Concluído em 1916, e composto por dois edifícios, um para frutas e legumes, e outro, para pescado, seus frescos e diversos produtos fazem-lhe brotar o desejo de provar um prato típico da região. Assim, o almoço se faz à volta de uma cataplana, num dos restaurantes da avenida, que lhe satisfaz o desejo dando-lhe animo para continuar o seu passeio por essa avenida onde o edificado de estilo mourisco, se intercala com os charmes da arquitetura mais glamorosa do final do século XIX.
Atraído por essa arquitetura, num dos seus afluentes identifica uma linda fachada dessa época, com portas amarelas e lindas cantarias trabalhadas (fachada acima vista no vídeo) que o leva a conhecer: está simplesmente em frente à casa onde nasceu quem mais orgulhou os Olhanenses; o Dr. Francisco Fernandes Lopes, que formado em medicina, também se fez escritor, e até músico, durante a sua vida voltada para esta cidade. Os historiadores, registam o seu vasto saber enciclopédico, que durante a sua vida, aplicou-o, entre outros, na divulgação da história e da cultura de Olhão como ninguém [2]. A ele, até se deve o epíteto de “vila cubista”, dado à sua terra natal, que tudo deixou para nela ficar, e os Olhanenses, não se esquecem; seu nome, vê-se não somente na rua e na fachada do imóvel que admira, como também no nome de uma das escolas secundárias de Olhão.
Perto da casa desse grande benfeitor, uma boutique atelier opera desde 2012, onde a sua artesã, Maria José Caetano, entrega-se em cada obra, dando vida a quadros com relevo que constrói com bocados de madeira colados em tela e posteriormente pintados (atelier visto no vídeo acima, que aparece depois do vídeo da fachada do imóvel). Esses bocados de madeira, que são sobras do ofício do marido, são nas suas mãos reaproveitados e transformados em portas e janelas, inspiradas nas fachadas das casas de Olhão, por ser a sua maior inspiração. Apesar do seu passado na área das análises clínicas, abraça desde há 20 anos a sua veia artística, divulgando também, através da sua arte, a cultura Olhanense.
Com a ânsia de conhecer a riqueza natural do município, dirige-se até à bilheteira de Olhão, no fim do jardim da marginal, onde compra o bilhete da viagem de ferry até à ilha da Armona. Tendo partidas regulares, o ferry boat já o espera e uma curta viagem de 15 minutos lhe é proporcionada pela Ria Formosa. Um desembarque agitado no cais da ilha da Armona se faz sentir, e o aglomerado de comércios e de pessoas encontradas, o faz acreditar que a praia virada para o mar, está ao virar da esquina. Assim, ansioso por conhecer a sua tão aclamada praia, enverga pelo seu único caminho a passo acelerado. Esse caminho que só é possível percorrer a pé, é ladeado por pequenas casas onde seus floridos jardins enfeitam o caminho proporcionando alegria. Apesar da alegria, a caminhada se faz cada vez mais longa, o cansaço se instala e sem fim à vista, desespera, mas não há nada que possa mais fazer do que continuar a andar nessa ilha sem estradas, nem carros. A resiliência vinda da sua alma aventureira, o motiva a continuar, quando finalmente ao longe avista as dunas da praia, mas sem mar à vista. A única coisa que sabe, é que por detrás desse grande areal existe o que procura, pelo que continua. Com um passo lento, finalmente chega ao mar totalizando uns inesperados 1.6 km, e entrando no seu maravilhoso mar de águas límpidas e quentes, percebe que o seu verdadeiro propósito não era simplesmente ali chegar, mas sim, também aprender, e sobretudo interiorizar, que com empenho e resiliência, consegue alcançar muito mais do que imagina.
Veja este vídeo que dá a conhecer os momentos mais importantes da viagem que acaba de mentalmente fazer.
Referências
[1] Casas da Barreta. Acedido em: 05, setembro, 2024, em: https://www.olhaocubista.pt/patrimonio/Barreta.htm
[2] Francisco Fernandes Lopes. Acedido em: 05, setembro, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Fernandes_Lopes
Créditos
Texto e vídeo produzido pela Sanperio By Isabel, decorrente da sua visita ao local descrito em 07/2024


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