Deixando a requintada e eclética Londres para trás, ruma para oeste, atravessando os lindos campos ingleses de Chilterns, para 1 hora e meia depois, novamente se cruzar com esse rio que já pensava ter deixado na Capital; o rio Tamisa. Contudo, ele ali se mostra diferente: mais tímido, recebe um dos seus afluentes, o rio Cherwell, e na sua bifurcação, abraça essa cidade alcunhada por “the city of dreaming spires”: i.e., a cidade dos pináculos sonhadores.
Ao desembarcar no centro da cidade de Oxford, a sua arquitetura lhe transporta para outros tempos: estabelecida no século IX pelo rei Alfred o Grande, foi inicialmente criada como uma aldeia fortificada para, em conjunto com as demais, defender o condado de Wessex, o berço da nacionalidade inglesa, das invasões vikings dinamarqueses [0][1]. Assim, o seu passeio pelas ruas de Oxford, lhe fazem reviver toda a sua história, que se confunde em parte, com o da sua pátria:
Aos seus pés, uma pequena e saudosa calçada ainda resiste junto a alguns dos seus mais antigos Colégios, como que para indicar que os romanos também por ali passaram. Levantando o olhar, um edifício de estilo medieval e gótica se encontra como que preso a ela, denunciando assim, as origens monástica da universidade de Oxford, enquanto alguns detalhes da sua fachada, indicam a mudança implementada pelo rei Henrique VIII, que em 1534, dissolveu mosteiros e conventos, e fundou a Igreja Anglicana. Em certos edifícios, alguma ornamentação barroca se identifica, mas são os edifícios de estilo Neoclássicos, que mais se destacam relembrando-nos da radical mudança de pensamentos ocorrida durante a revolução industrial que foi eventualmente contestada, erguendo durante o período romântico, edifícios que nostalgicamente os fizessem novamente recordar o seu passado. Assim, edifícios de estilo neogótico, pontuados por outros de estilo vitoriano, também compõem o panorama.
A maioria dos edifícios históricos se encontram revestidos em pedra calcária dourada da região [2], o que uniformiza o panorama conferindo-lhe charme. Olhando para o topo dos seus edifícios, alguns minaretes deles emergem como que para cumprimentar as nuvens que os acompanha. Assim, em tempo enovoado, enverga na descoberta da sua prestigiada universidade onde o misticismo ganha forma quando o seu olhar se pousa nos claustros dos seus colégios medievais que vislumbra entre portas entreabertas. Curiosamente, sente que já ali esteve, ou pelo menos, o seu imaginário. Será fantasia? Certamente que não, já que Oxford serviu de inspiração a vários escritores e deu vida a cenário cinematográfico [3], como os do Harry Potter, que ao nosso ver, mais alimenta a fantasia.
Assim sendo, é nesse cenário, perfeito para o dia do Halloween que se avizinha, que lhe damos a conhecer as curiosidades dessa universidade que desde 1096 [4] estabelece práticas de ensino invulgares, cultiva costumes, cria ilustres e deixa mistérios a pairarem no ar. Fique connosco, e conheça as curiosidades dessa universidade que é simplesmente considerada uma das melhores do mundo.
Curiosidades sobre a Universidade de Oxford
- A universidade de Oxford é a mais antiga universidade do mundo anglo-saxónico
Apesar de lecionar desde 1096, só em 1231 é que é reconhecida como uma universidade [4], tornando-se assim, na segunda universidade mais antiga do mundo e a mais antiga na esfera anglo-saxónico [5].
2. Tem um método de ensino singular que fomenta as capacidades dos seus alunos
Apesar de ser uma instituição pública de ensino superior com aulas formais, a sua organização e método de ensino é muito diferente do que estamos habituados: todos os alunos da universidade de Oxford têm que obrigatoriamente pertencer a um dos seus 43 colégios [4], já que os seus alunos, se candidatam a um deles, e não diretamente à universidade, conforme se poderia esperar.
Esses Colégios, podem ser classificados como históricos, por terem sido fundados na época medieval (como o colégio que se vê do lado direito da foto de destaque que parece um mosteiro) ou serem mais recentes. Assim sendo, tanto existe em Oxford colégios que remontam ao século XIII (por exemplo, o University College, que é o mais antigo colégio da universidade de Oxford, fundado em 1249, seguido de Balliol College, fundado em 1263, e de Merton College, fundado em 1264), como também existe colégios mais recentes, fundados por bem feitores, como é o caso do Kellogg College, que foi estabelecido em 1990 pela fundação da empresa de cereais americana kelloggs, com a mentalidade de ser mais inclusiva, aceitando muitos trabalhadores-estudantes, com uma taxa de aceitação superior às restantes, por não ser tão criteriosa ou elitista como as outras. Por exemplo, se para os programas de mestrado, o Kellogg College aceitou em 2023 94,8% dos seus candidatos, já o Magdalen College, o mais conceituado e elitista de todos, só aceitou 19,4% [6] – para quem estiver curioso em conhecer as taxas de admissão para tirar uma Licenciatura neste universo, os dados indicam que em 2023, dos 23 211 alunos que se candidataram, só 3 219 conseguiram um lugar nos colégios, e por consequência, puderam estudar na universidade de Oxford [4].
Assim, nesse sistema organizacional, podemos dizer que o colégio frequentado denota muito mais as capacidades e a mentalidade em que um licenciado se forma já que eles são geridos autonomamente: com um brasão, origem, organização, eventos sociais, equipa de desporto e mentalidade própria. Contudo, a nível de ensino, a sua missão é transversal: i.e., lecionar algumas matérias, assim como tutorear e acompanhar os seus membros para lhes conferir um ensino personalizado que estimule a investigação e o sentido critico destes. Para além disso, esses colégios também disponibilizam alojamento e 3 refeições por dia nos seus refeitórios – mediante subscrição desses serviços para além da propina paga à universidade e ao colégio inscrito [7]. Contudo, nem todos os alunos acabam por viver nos colégios, mas habitualmente, os caloiros e os finalistas, são os que mais abraçam a vida colegiada, por, respetivamente, poderem melhor se integrar na comunidade dos seus colégios, algo até fomentado pela universidade, e terem mais orientação para conseguir acabar o curso.
Assim sendo, os alunos de Oxford têm que para além de frequentar as aulas formais, laboratoriais e seminários dados pela Universidade, terem que, uma vez por semana, se encontrar com um tutor do seu colégio para, por exemplo, discutir um artigo cientifico que ficou em ler, apresentar um pequeno artigo que escreveu ou explicar um exercício que fez, com o intuito de potenciar as suas capacidades, para assim, tornarem-se alunos de topo, que consigam não somente passar nos exames da universidade, como também, deixarem algo no mundo – não é por acaso que é a terceira universidade do mundo que mais artigos científicos publica, a seguir às universidades americanas de Harvard e Stanford [8]. Para além disso, durante as férias, incluindo as de verão, leva trabalho para fazer.
3. Não existe um edifício específico que o represente
Fruto da sua organização e método de ensino, a universidade de Oxford não tem um edifício/campus principal que o represente já que o seu espólio se encontra espalhado pela cidade de Oxford; confundindo-se com o da própria cidade. Assim, entre as casas da cidade, colégios, edifícios administrativos, bibliotecas, museus e catedrais, se entrelaçam e formam a história desta tão charmosa cidade. Contudo, a universidade de Oxford possui edifícios importantes, que em conjunto com os seus mais antigos colégios, formam a identidade visual da universidade de Oxford. Destacamos os seguintes:
O Sheldonian Theatre, um edifício semioval de estilo Baroco inglês construído entre 1664 e 1668, tem como propósito a realização de concertos de música, aulas importantes e cerimónias académicas solenes [9].
Por trás deste, um grande edifício de estilo gótico inglês se apresenta como uma fortaleza. Envolta de fantasia por já ter sido o palco de variadíssimos cenários, como o da biblioteca de Hogwarts nos filmes de Harry Potter. Essa biblioteca intitulada por Bodleian, resiste ao tempo desde 1602 e por consequência, é considerada uma das mais antigas da Europa [10]. Funcionando como um repositório, guarda uma cópia de todos os livros publicados no Reino Unido ou Irlanda. Atualmente, possui mais de 13 milhões de itens impressos [10], também guardados no edifício Radcliffe Camera (edifício que se vê no centro da foto de destaque deste post) e Radcliffe Science Libray, onde este último, guarda os livros da área da medicina e das ciências. Assim, é nesses espaços, que os estudantes de Oxford, consultam e estudam como os seus ilustres antepassados.
Ao lado deste, o Clarendon Building, um edifício de estilo Neoclássico concluído em 1715, alberga os escritórios e as salas de reuniões dos membros sénior da Biblioteca Bodleian. Contudo, o propósito inicial da sua construção foi outro, já que serviu inicialmente de redação do jornal universitário de Oxford (OUP), que atualmente ocupa outro edifício, e no século seguinte, chegou a ser os escritórios administrativos da faculdade [10][11].
4. Os estudantes têm que estar trajados durante a realização dos seus exames
Se a tradição do traje académico é em Portugal essencialmente reservado aos dias solenes de celebração, em Oxford, a tradição se estende a todos os eventos de grande importância. Assim, tanto no dia das matrículas, como em dias de celebração ou avaliação, os estudantes têm que usar o seu traje preto de camisa branca para demonstrar a seriedade e a importância do momento, assim como prestar respeito aos presentes doutores que já ganharam o grau tão desejado por estes [13].
5. A história de “Alice no País das Maravilhas” foi inspirada em Oxford
Charles Lutwidge Dodgson, um antigo professor de matemática do Christ Church College de Oxford, fez em julho de 1862, um passeio de barco com um amigo e as 3 filhas do responsável do colégio onde lecionava: Loriny Charlotte de 13 anos, Alice Pleasance Liddell de 10 anos e Edith Mary de 8 anos. Durante a viagem, as meninas se entediaram, pelo que Charles Dodgson decidiu as entreter contando uma história improvisada, inspirando-se nas pessoas, situações e edifícios de Oxford. Mais tarde, incentivado pelos seus amigos e mentor George MacDonald, acaba por pôr em papel essa história que em 1865, com o pseudónimo Lewis Carroll, publica com o título de “Alice no País das Maravilhas” [12].
6. 73 vencedores do prémio Nobel passaram por Oxford
Pelo ranking do the Times Higher Education World University Ranking, a Universidade de Oxford é a melhor universidade do mundo [4] e isso, se verifica pelos feitos dos seus antigos alunos. De facto, para além dos 73 ilustres Oxonianos que já ganharam um prémio Nobel, outros se tornaram famosos: e.g., a primeira ministra Margaret Thatcher e Indira Gandhi; o primeiro ministro Bill Clinton, Tony Blair e Rishi Sunak; o escritor J. R. R. Tolkien (O Senhor dos Aneis); o cientista Stephen Hawing; o cientista informático Tim Berners-Lee (o que inventou a internet) e Edgar F. Codd (o que criou o modelo racional de dados); o ator Rowan Atkinson (o mister bean) e o filosofo John Locke [4], entre tantos outros, influenciaram, contribuíram ou simplesmente fizeram sorrir ou espairecer alguém – não será esse também um dos legados desta vida?
7. A universidade de Cambridge é uma spin off da universidade de Oxford
Em 1209, um evento terrível acontece na cidade de Oxford: três estudantes são enforcados pelas autoridades locais, por terem alegadamente matado uma residente, sem a consultação prévia das autoridades eclesiásticas responsáveis pelos jovens. O clima de violência ali vivido, fez com que alguns académicos se refugiassem na cidade de Cambridge, por ali também existir uma boa reputação no ensino dado por monges.
De forma a receber esses refugiados, a universidade de Cambridge é fundada e estabelecida nos mesmos moldes colegiais do que Oxford, criando assim, até colégios ditos “irmãos” deste. Apesar de rivais, a dupla é apelidada por Oxbridge, e forma a dupla de universidades mais prestigiada do Reino Unido. Ainda hoje, elas mantêm uma forte ligação, tanto que os ingleses, não se podem candidatar, em simultâneo, a elas, tendo que assim, optar por um colégio de Oxford ou Cambridge [14].
8. A cidade e a universidade de Oxford estão assombradas com histórias sobrenaturais
Não podemos esquecer que os ingleses descendem principalmente dos Celtas, cuja a presença nas suas ilhas remonta a 10 mil anos atrás [15], e que o Samhain, festa celta que se iniciava ao anoitecer do dia 31 de outubro, era a sua maior celebração; eles a encaravam como a festa do Ano Novo porque marcava a transição entre a metade mais iluminada do ano, com a mais escura, sem contar que era também a época das colheitas com a preparação dos alimentos para o inverno. Contudo, a sua importância vai mais além: os Celtas da época acreditavam que por estes dias, havia uma “intensidade sobrenatural” fora do normal, que permitia as almas dos mortos voltarem às suas casas. Assim, de forma a espantarem os espíritos maus, as pessoas vestiam-se com fantasias e máscaras, assim como acendiam fogueiras. Com o tempo, esse evento foi chamado de All Hallows Eve (véspera de todos os santos) e de hoje em dia, é chamado de Halloween [16]. Assim, é nesse contexto cultural, que a cidade e a universidade de Oxford sussurra histórias sobrenaturais no meio do seu cenário medieval sombrio que por esta altura dá calafrios a alguns. Aqui vai algumas das suas histórias:
Alguns funcionários e visitantes afirmam sentir uma presença estranha, assim como ouvir o som de livros a mudarem de sítio e a virarem as suas páginas junto às estantes do Duke Humfrey da Biblioteca Bodleian. Diz-se ser o fantasma de um antigo bibliotecário, que morreu em circunstâncias desconhecidas, e que ainda vagueia pela Biblioteca Bodleian [17].
Outro evento sobrenatural que se conta, é de que o fantasma da Imperatriz Matilde se tenha visto várias vezes a vaguear pelo castelo de Oxford vestida de branco conforme se tinha arranjado durante a nevada noite de inverno que decidiu escapar ao cerco feito ao seu castelo durante o século XII [18].
Contudo, é do colégio de Merton que se houve mais histórias. A mais incrível que ouvimos, é de que o fantasma do escritor do livro do Senhor dos Aneis, o Professor J.R.R Tolkien, ainda se encontre a vaguear pelos corredores e pátios da escola vestido com o seu casaco de tweed a fumar o seu cachimbo. Alguns membros do colégio reportam que de vez em quando, o cheiro de cachimbo lhes chega inexplicavelmente ao nariz, como se Tolkien tivesse estado ali momentos antes [19].
Muitas outras histórias sobrenaturais [17] [18] [19] e lendas se ouvem por lá contar, histórias essas, que seguramente já alimentaram a imaginação de muitos escritores, mas se a curiosidade o leva a perguntar se nós sentimos ou ouvimos algo enquanto lá estivemos? Podemos dizer que não, mas se calhar, foi a nossa septicidade que nos cegou?…Boo! 😊
Bons preparativos para o Halloween!
Referências:
[0] Anglo-Saxon Burhs. Acedido em: 21, outubro, 2024, em: https://www.britainexpress.com/architecture/burhs.htm
[1] Inglaterra anglo-saxã. Acedido em: 21, outubro, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Inglaterra_anglo-sax%C3%A3
[2] The Stones that built Oxford. Acedido em: 20, outubro, 2024, em: https://goldholme.com/history-stone/the-stone-that-built-oxford/
[3] List of films shot in Oxford. Acedido em: 21, outubro, 2024, em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_films_shot_in_Oxford
[4] University of Oxford. Acedido em: 20, outubro, 2024, em: https://en.wikipedia.org/wiki/University_of_Oxford
[5] List of oldest universities in continuous operation. Acedido em: 21, outubro, 2024, em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_oldest_universities_in_continuous_operation
[6] Colleges of the University of Oxford. Acedido em: 22, outubro, 2024, em: https://en.wikipedia.org/wiki/Colleges_of_the_University_of_Oxford
[7] Course fees for 2025 entry. Acedido em: 22, outubro, 2024, em: https://www.ox.ac.uk/admissions/undergraduate/fees-and-funding/course-fees
[8] Best Universities in the World 2024 Ranking. Acedido em: 22, outubro, 2024, em: https://research.com/university-rankings/best-global-universities
[9] Sheldonian Theatre. Acedido em: 22, outubro, 2024, em: https://en.wikipedia.org/wiki/Sheldonian_Theatre
[10] Bodleian Library. Acedido em: 22, outubro, 2024, em: https://en.wikipedia.org/wiki/Bodleian_Library
[11] Clarendon Building. Acedido em: 22, outubro, 2024, em: https://en.wikipedia.org/wiki/Clarendon_Building
[12] Alice no País das Maravilhas. Acedido em: 23, outubro, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alice_no_Pa%C3%ADs_das_Maravilhas
[13] Academic dress. Acedido em: 23, outubro, 2024, em: https://www.ox.ac.uk/students/academic/dress
[14] University of Cambridge. Acedido em: 23, outubro, 2024, em: https://en.wikipedia.org/wiki/University_of_Cambridge
[15] Ingleses. Acedido em: 23, outubro, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ingleses
[16] O que é Samhain? A história por trás do festival celta que deu origem ao Halloween. Acedido em: 23, outubro, 2024, em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2023/10/o-que-e-samhain-a-historia-por-tras-do-festival-celta-que-deu-origem-ao-halloween
[17] Top 5 Oxford Ghost Stories and Supernatural Tales. Acedido em: 23, outubro, 2024, em: https://oxfordvisit.com/articles/ghost-stories-and-supernatural-tales/
[18] The Spooky Ghost Stories of Oxford. Acedido em: 23, outubro, 2024, em: https://www.oxfordcastleandprison.co.uk/about/news/the-spooky-ghost-stories-of-oxford/
[19] Top 5 Oxford Ghost Stories and Supernatural Tales. Acedido em: 23, outubro, 2024, em: https://www.darkoxfordshire.co.uk/explore/tolkiens-ghost-at-merton-college/
Créditos:
Pesquisa e texto produzido pela sanperio by isabel decorrente da sua visita a Oxford em setembro de 2024

Deixe um comentário