Em 2023/2024, o Brasil alcançou 39% da quota do mercado produtor de café, o equivalente a 66.3 milhões de sacos de café de 60 Kg, seguido pelo Vietnam em 16%, a Columbia em 8%, a Etiópia em 5% e a Indonésia em 5% do mercado global [1] [2]. Contudo, se o Brasil detém a reputação de ser o maior produtor de café do mundo, produzindo as duas principais variedades de café (i.e., cerca de 64% da variedade Arábica e 36% da variedade Robusta [3]), os outros gigantes, se coroam com outros louros não menos importantes: o Vietnam, é o maior produtor de café da variedade Robusta; a Columbia, o maior produtor de café Arábica de alta qualidade; a Indonésia, um dos melhores produtores de café Robusta de boa qualidade – variedade amplamente empregue na fabricação do café solúvel – e a Etiópia, é o berço do café, produzindo como a Columbia, exclusivamente a variedade Arábica [3], com a fama de ter um dos melhores grãos de café do mundo. Fama essa, que não é de se estranhar, já que o café Arábica também tem no mundo mais adeptos do que o Robusta por ter um sabor mais suave e aromático do que este último que tem um travo mais amargo com quase o dobro da cafeína, mas que num café expresso, bem cai, por conferir aquele aroma mais profundo com um creme mais denso [4]; conforme dita o gosto português.
Quem o confere é a Drª. Claúdia Pimentel, secretária-geral da Associação Industrial e Comercial do Café, que numa entrevista em 2023, desvendou o porquê: durante muitos anos, Portugal teve o café de Angola, que é essencialmente da variedade Robusta, o que acabou por moldar o gosto da maioria dos portugueses durante o século XIX e XX, conquistado, entre outros, pelo seu creme que a variedade Arábica não possui. Contudo, o mais interessante dessa entrevista, foi ao nosso ver, o desvendar de como o café expresso português é feito, já que internacionalmente, tem ganho adeptos: ao contrário do café italiano que tem uma torra carregada, o café português, tem uma torrefação lenta e moderada que permite torrar os grãos de café uniformemente extraindo paladares e cheiros que o café italiano não apanha, para além de que o café tradicional português é uma mistura de café Robusta com o Arábica, fruto do seu convívio com diversas culturas [5], produzindo assim, um “blend” dito único que se pudesse falar, contava o período áureo da história portuguesa. De facto, quando nos lembramos que Angola chegou a ser durante o período colonial o quarto maior produtor de café do mundo, comercializando essencialmente a variedade de café Robusta [6], tudo se encaixa. Contudo, dessa entrevista algo importante ressalta: o facto da história de um povo, moldar os hábitos e os costumes das pessoas até ao ínfimo ato de saborear algo; facto esse, que demonstra o quão importante é conhecermos a nossa história, ou a história de algo, para podermos melhor nos conhecer e nos compreender.
Assim sendo, a curiosidade em saber como tudo começou, neste ano colorido pela empresa Pantone com a cor “Moka Mousse”, nos leva a neste artigo recuar no tempo para melhor perceber como essa acastanhada bebida, que nos primórdios era vista pelos europeus como duvidosa, conseguiu conquistar o seu cardápio seduzindo-o com novos costumes.
A breve história do café até à mesa portuguesa
Reza a lenda, que um pastor etíope de nome Kaldi terá durante o século IX observado que suas cabras ficavam mais ativas após comer as folhas e os frutos do cafeeiro. Por sua vez, decidiu experimentar e sentindo-se com maior vigor, decidiu levá-los ao monge da região que começou a utilizá-lo como infusão para resistir ao sono enquanto orava [7]. A descoberta, espalhou-se pelos vários mosteiros islâmicos, e a procura pelo café se iniciou. Mito ou verdade, o que se sabe é que há provas de que o café terá começado o seu cultivo em mosteiros islâmicos, mais precisamente no Iêmen com mudas vindas da Etiópia, onde entre o século XV e XVII se desenvolveu em Al-Mokha ou Mocha, o primeiro e mais importante porto de exportação de café; lugar de onde também vem a variedade de café Arábica Mocha que deu nome ao bolo Moka por ser aromatizado com este último [8].
Difundindo-se pelo mundo árabe, foi na Pérsia que se torre pela primeira vez o café. Em 1475, em Constantinopla, na atual Istambul, vemos a primeira cafetaria do mundo a se erguer: enquanto os visitantes conversavam, saboreava-se o então chamado “vinho das arábias” por, como o vinho proibido pelo islão, revigorar o corpo [9]. Mais tarde, no século XVII, o café chega à Europa através dos comerciantes venezianos e espalha-se pela Itália; o primeiro país europeu a provar o café. No entanto, o seu sabor e efeito estimulante levantam resistências entre o clérigo que teme que essa acastanhada bebida de terras islâmicas seja uma “obra do diabo”. Quase “excomungado” às portas da Europa, o papa Clemente VIII decide provar essa estranha bebida. A sorte, ditou que o Papa se encantasse com o seu sabor, declarando-a como aceitável para consumo entre cristãos.
Esse apoio inesperado, ajudou a popularizar essa bebida exótica pela Europa. Contudo, a elite da época, começa a achá-la perigosa; nos novos espaços de confraternização por ela criada, se vê poetas, filósofos, políticos e escritores a discutir e a partilhar ideias ditas demasiado “inteligentes” e “perigosas” passiveis de fazer “tremer” os sistemas político-sociais da época, mas o hábito criado já não tinha retorno [10].
Durante o século XVIII, aparecem os primeiros cafés portugueses inspirados nas tertúlias francesas do século XVII; tornando-se espaços de animação cultural e artística [11]. Nesse mesmo século, o Magnânimo Rei de Portugal, o Rei D. João V, solicita os serviços do militar luso-brasileiro Francisco de Melo Palheta incutindo-lhe a missão “especial” de ir buscar sementes e mudas de café da variedade Arábica à Guiana Francesa para implantar o seu cultivo no Brasil devido à valorização que o café estava a ter no mercado internacional. Essa missão, que nos dias de hoje mais seria considerada uma tarefa, tinha na época muito que se lhe diga, porque na altura, quem detinha na Europa o controlo da comercialização do café era os Países Baixos e a França através das suas colónias, guardando a planta e suas sementes a sete chaves por serem na altura consideradas preciosíssimas devido à riqueza que elas geravam. Assim, aproveitando-se da necessidade que já tinha de se reunir com o país vizinho para discutir o restabelecimento das suas fronteiras no rio Oiapoque, que se encontravam na altura violadas por este, dirige-se até à Guiana Francesa e conclui com êxito em 1727 a missão incumbida [12].
No início do século seguinte, o aumento da procura dos mercados europeus e norte americanos pela bebida, estimulou o cultivo cafeeiro brasileiro tornando-o no maior produtor de café do mundo, garantindo na época, as divisas necessárias para a sustentação do Império Brasileiro [13]. Entretanto, mudas Brasileiras são introduzidas nas ex-colónias portuguesas de Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe – a lusofonia ganha o poder do comercio do café. Em Angola, a primeira plantação de café é estabelecida por um agricultor luso-brasileiro em 1837, ano da independência do Brasil, e em 1975, ano da independência de Angola, alcança o feito de ser o quarto maior produtor de café do mundo com 200 mil toneladas de café Robusta [15].
Se nessa altura a economia angolana ia de vento em popa, o empreendedorismo português se encontrava também fomentado no sector: em 1940, Salazar instituiu a Junta Nacional de Exportação do Café, com o objetivo de melhorar a produção e educar os produtores; na altura, exportava-se muito o café cru, pelo que a torrefação para consumo era uma necessidade, já que a procura do café, até então reservada à classe alta, estava em ascensão com o enriquecimento do povo que até então consumia a tal cevadinha [16]. Contudo, só foi por volta dos anos 1960, que as coisas mudam, abrindo-se muitas pequenas torrefações de bairro, a torrarem e a comporem o seu próprio “blend” com grãos das ex-colónias onde a variedade Robusta mais chegava e se transformava num café que ia moldando o gosto português.
Exemplo disso, é a nossa querida Delta, que parece estar ao nosso lado desde sempre, mas que na verdade, só foi fundada em 1961, pelo nobre visionário Rui Nabeiro, num pequeno armazém alentejano de 50m2 com 3 funcionários. Na década de 1970, se consolidou, e em 1998, atinge o auge [17] definindo-se como uma referência no café expresso português; com um creme e uma profundidade de sabor que conta a história de um povo em cada prova.
Referências:
[1] Production – Coffe. Acedido em: 17, janeiro, 2025, em: https://www.fas.usda.gov/data/production/commodity/0711100
[2] Brazil: Coffee Semi-annual. Acedido em: 20, janeiro, 2025, em: https://www.fas.usda.gov/data/brazil-coffee-semi-annual-8
[3] Quais são os 5 maiores produtores de café do mundo? Brasil se destaca!. Acedido em: 20, janeiro, 2025, em: https://agroadvance.com.br/blog-5-maiores-produtores-de-cafe-do-mundo/
[4] Aprenda a distinguir os grãos das principais variedades de café. Acedido em: 20, janeiro, 2025, em: https://cafeautentico.pt/as-variedades-do-cafe-arabica-e-robusta/
[5] Cláudia Pimentel: “O café português é único e é cada vez mais valorizado. Acedido em: 23, janeiro, 2025, em: “https://dinheirovivo.dn.pt/claudia-pimentel-o-cafe-portugues-e-unico-e-e-cada-vez-mais-valorizado-16539773.html”
[6] Angola era o quarto maior produtor de café há 50 anos. Acedido em: 20, janeiro, 2025, em: https://www.africadosul.mirex.gov.ao/web/noticias/angola-era-o-quarto-maior-produtor-de-cafe-ha-50-anos
[7] História do café. Acedido em: 21, janeiro, 2025, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_caf%C3%A9
[8] Moka (pâtisserie). Acedido em: 21, janeiro, 2025, em: https://fr.wikipedia.org/wiki/Moka_(p%C3%A2tisserie)
[9] A rica história do café. Acedido em: 21, janeiro, 2025, em: https://www.nescafe.com/br/cultura-do-cafe/conhecimento-do-cafe/historia-do-cafe
[10] A Bebida do Mal? A História Fascinante e Controversa do Café. Acedido em: 21, janeiro, 2025, em: https://cafearoma.com.br/2024/11/05/a-bebida-do-mal/
[11] Como chegou o café a Portugal?. Acedido em: 21, janeiro, 2025, em: https://opiniao-publica.pt/sociedade/especial-sociedade/01/10/como-chegou-o-cafe-a-portugal/
[12] Francisco de Melo Palheta. Acedido em: 22, Janeiro, 2025, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Melo_Palheta
[13] Raízes do café no Brasil. Acedido em: 21, janeiro, 2025, em: https://brasilescola.uol.com.br/historia/o-cafe-no-brasil-suas-origens.htm
[14] Produção de café em Angola. Acedido em: 22, janeiro, 2025, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Produ%C3%A7%C3%A3o_de_caf%C3%A9_em_Angola
[15] O mito da Rainha Ginga. Acedido em: 22, janeiro, 2025, em: https://dddelta.com/mito-rainha-ginga/
[16] História que o café escondeu. Acedido em: 23, janeiro, 2025, em: https://www.noticiasmagazine.pt/2017/historia-que-o-cafe-escondeu/historias/32877/
[17] Delta Cafés. Acedido em: 23, janeiro, 2025, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Delta_Caf%C3%A9s
Créditos:
Trabalho de pesquisa e texto da sanperio by isabel

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