Nunca se perguntou quais são esses pássaros pretos que durante a primavera enchem os céus citadinos portugueses ao amanhecer e ao entardecer? Soltando gritos agudos e estridentes em voo veloz? Se sim, fique connosco e descubra a sua fascinante história que não podia deixar de partilhar convosco.
Para tal, vos levo a caminhar pela escrita pelas ruas da cidade dos estudantes, Coimbra, onde os gritos dessa ave entoam com as musicas estudantis nas ruas históricas desta cidade que tentam abafar o seu barulho citadino – assim é a vivência desta cidade em vésperas da queima das fitas.
Os gritos dessa ave sempre me fazem em início de primavera levantar o olhar, como que para confirmar a sua chegada de África que num sorriso de alívio, observo o voo desses pequenos mestres dos ares, por saber que este ano, também me protegeram das malvadas picadelas de mosquitos, como que para agradecer de não terem destruído o seu ninho que com o seu parceiro construiu e para o qual, em todas as primaveras, regressa. Esse regresso à sua terra natal tem um fraterno propósito: o de se reunir com o seu amado já que desde outubro passado, não têm estado juntos; pois os casais se separam em outubro para migrar em busca de alimento, percorrendo milhares de quilómetros até África, para em março se reencontrar de novo, exatamente onde a sua história se iniciou; uma história de facto cheia de superação e romantismo.
Tendo pernas curtas e frágeis, que mal os possibilita caminhar, tiveram que fazer da sua fraqueza uma força de superação que os levou, com a evolução da espécie, serem galardoados como a ave que mais tempo consegue voar sem pousar: não são horas, nem dias, são meses; até 10 meses seguidos, pousando unicamente para nidificar e descendo em altitude só para se roçar nos espelhos dos rios, onde, ao passar, como que caça a água que os refresca dos insetos que engole durante o voo – assim é essa ave que trocou a terra pelos céus, fazendo tudo nele: dormir, alimentar e até acasalar em voo sincronizado.
Não conseguindo levantar voo, escolhe habitualmente prédios em bairros históricos citadinos para nidificar já que têm sempre uma fresta formada pelo tempo que os agrada para tomar como residência, coabitando assim, gerações atrás de gerações, com os mesmo moradores em terra, já que esta pequena ave, retornando sempre ao mesmo ninho, pode viver até aos 20 anos de idade.
Com uma anatomia que os confunde com andorinhas — embora nem parentes sejam — chamam-se andorinhões-pretos e têm uma história simplesmente fascinante:
Num buraco escolhido a dois, o casal constrói um pequeno ninho. A fêmea põe dois a três ovos e ambos incubam com paciência.
Após cerca de 6 semanas, os filhotes nascem de olhos fechados, mas com o céu já inscrito no instinto. Pouco tempo depois, enquanto os pais se preparam para partir, os juvenis lançam-se sozinhos para o desconhecido voando até África; sem guia, sem ensaio, apenas levados por heranças invisíveis.
Durante os seus primeiros dois a três anos, cruzam continentes, amadurecem nos ventos tropicais, e só então regressam à cidade que os viu nascer para ali encontrar um parceiro, que mantém durante anos.
O casal escolhe em conjunto uma cavidade segura, constroem o seu ninho e o ciclo se inicia novamente; aguardam o dia em que os filhos partam – sem saber se voltarão – enquanto se preparam para eles também fazerem a sua própria travessia: o casal, separa-se em silêncio e cada um segue sozinho para sul, confiando no instinto que, a primavera seguinte, os fará reunir de novo, regressando à sua terra e a aquele ninho onde tudo começou.
Mas se o ninho já não estiver lá — se o buraco tiver sido fechado, se o telhado tiver sido refeito — então, se não conseguirem encontrar um sítio com as mesmas características, não se reproduzem, já que para eles, sem um lugar seguro, não há descendência porque eles não improvisam: procuram sempre um local alto, virado a norte, com uma boa saída para voar, o que é às vezes difícil de encontrar em cidades todas reconstruídas com edifícios modernos, todos lisos e sem cavidades que não lhes permite construir um ninho – foi o que aconteceu na nossa vizinha Espanha, e hoje, é lá classificada como uma ave vulnerável, daí a importância de planearmos imóveis não somente pensados para os inquilinos da terra, mas dos ares também.
No fim da minha caminhada citadina, volto a pousar o olhar em terra e cruzo-me com um grupo de estudantes trajados que se preparam para festejar o final dos seus estudos. As suas capas negras ao vento, fazem-me lembrar a morcegos, que tal como os andorinhões-pretos, ambicionam e se ultrapassam num voo que desafia a gravidade e o destino de cada um deles – não serão eles uma inspiração?


Autor: Sanperio by Judith
Referência: https://www.andorin.pt/andorinh%C3%A3o-preto

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