Sim, estamos a falar do Bacalhau, que por ser tão importante para os portugueses, o chamaram de “fiel amigo” por estar sempre presente e nunca faltar por não se deteriorar [0]. De facto, ele está entre nós desde sempre. Contudo, o seu hábito à nossa mesa, não é de há tanto tempo quanto isso. Conheça a sua história, que se mistura com a nossa, e entenda melhor a sua tradição já que faz parte da nossa identidade.
Tudo começa na época medieval, mais precisamente, na era viking (i.e., entre o final do século VIII e o início do século XI), quando os escandinavos (povos da atual Dinamarca, Suécia e Noruega) exploraram grandes áreas da Europa e ilhas do Atlântico Norte [1], e com isso, descobrem o bacalhau, que só existe nos mares gélidos do Ártico e Atlântico Norte, assim como nos seus mares conectores (i.e. Mar da Gronelândia, Noruega e Labrador). Os vikings pescavam o peixe com linha e anzol, secavam-no sem sal, graças aos seus gélidos ventos, e vendiam-no – era um dos seus sustentos. No século XI, centralizam a sua comercialização na localidade de Bergen, na Noruega, e no século XIII, ganham o controlo da exportação do bacalhau [2]. Entre tanto, o primeiro vínculo dinástico formal entre a Dinamarca e Portugal se forma; em 1214, o rei da Dinamarca, Rei Valdemar II, casa-se com a Infanta Portuguesa Berengária de Portugal – filha do segundo Rei de Portugal D. Sancho I. Dessa união, nascem os seguintes 3 Reis da Dinamarca e, acredita-se, um dos nossos primeiros contactos com a iguaria [2].
Na época medieval, os católicos eram obrigados a, antes das grandes festividades (e.g. dia de Natal e Páscoa), comerem humildemente e sem carne. Assim sendo, a longa conservação do bacalhau seco, é nessa altura não somente vista como muito útil pelos Portugueses, por bem se preservar durante as longas viagens de barco e não só, mas também como importante, no auxílio ao cumprimento das obrigações impostas pela igreja já que permitia o consumo de peixe por parte de quem vivia mais afastado do mar. Assim sendo, após Portugal assinar o tratado de Windsor com a Inglaterra (i.e., a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor e assinada em 1386 [3]), acordam em também trocar sal por bacalhau, deixando os pescadores de Lisboa e Porto pescarem nas águas inglesas nos seguintes 50 anos, já que o sal marítimo era naquela época um bem valioso, chamado de “ouro branco”, que o clima frio e húmido, como o inglês, não conseguia produzir [2].
De forma a selar o tratado de Windsor, o Rei da Inglaterra casa a sua filha piedosa, D. Filipa de Lencastre, com o então Rei de Portugal D. João I, e juntos, fundam a Casa de Avis – a casa monástica que deu o feito dos descobrimentos a Portugal e a torna, nessa altura, numa potência à escala mundial movido pelo sonho em chegar à India pelo mar. O seu objetivo, era deter a rota dos luxos da época (i.e., especiarias, marfim, pedras preciosas, seda, corantes etc.) e pelo caminho, evangelizar o povo que encontrasse. Para a época, era de facto um sonho porque dizia-se que era perigoso, algo nunca alcançado por nenhuma outra nação, pelo que impossível, e que monstros pelo caminho se encontraria. Contudo, com valentia, Portugal lança-se na mesma pelos mares e Ceuta (uma localidade no Norte de Africa, em Marrocos) é conquistada em 1415 – dava-se o início da era dos descobrimentos e do alento para alcançar o seu sonho almejado. Durante uma das viagens marítimas feitas na tentativa de chegar à India, no final do século XV, o navegador João Fernandes, um pequeno proprietário e labrador da ilha terceira (Açores), se dá com a costa da Terra-Nova no Canadá dando-lhe o nome de “Terra Verde”, e de “Lavrador”, à que se encontra mais a Norte e que hoje se chama Labrador, já que o navegador era um labrador [4]. Por essa altura, vários outros navegadores portugueses (i.e., os irmãos Miguel e Gaspar Corte-Real e João Álvaro Fagundes) vão nos anos seguintes na tentativa de se estabelecer e é por essa altura que a pesca do Bacalhau se inicia para os portugueses em terra descoberta. Apesar de Terra-Nova e Labrador estarem na jurisdição Portuguesa, conforme assinado no tratado de Tordesilhas em 1494, o navegador veneziano John Cabot, que trabalhava para a coroa inglesa, a declara por si descoberta em 1497. Entretanto, no mesmo ano, Portugal vive a euforia de ter alcançado o sonho que tanto desejava; i.e., chega à India. Mais tarde, em 1534 e 1542, o navegador Francês Jacques Cartier, movido pelo mesmo sonho português, chega ao Canadá, a aclama como conquistada [5] e afirma ter também chegado à Asia dando o nome de “Lachine” ( i.e. A China) à cidade ao pé da cidade Canadense de Montreal. Apesar das evidências, os pescadores Portugueses acabam por serem expulsos desses mares pelos novos conquistadores, ficando o assunto em águas de bacalhau. Assim sendo, Portugal vê-se forçado a doravante maioritariamente importar o bacalhau que continuava a ser um alimento exclusivo da Casa Real e da aristocracia [6].
Depois da monarquia Portuguesa acabar em 1910, em 1920, a Companhia Portuguesa de Pesca é fundada por quatro pequenos armadores de pesca de arrasto. Contudo, essa companhia piscatória não funciona bem e a população passa fome, pelo que o ditador imperialista António de Oliveira Salazar decide: centralizar a organização da pesca do bacalhau no Estado; estabelecer um acordo de pesca com o Canadá; fomentar a criação de cooperativas; cartelizar o abastecimento para torná-lo num alimento barato, mais barato do que o peixe fresco, e fundar a Campanha do Bacalhau em 1934 [8]. De forma a incentivar o seu consumo, investe em publicidade indicando que é um prato humilde e modesto como o povo português, pelo que é o prato nacional, e incontornável à mesa da consoada devido à sua boa conservação e obediência aos ensinamentos católicos.
Para concretizar o projeto Salazarista, a costa portuguesa se modifica para criar as salinas necessárias para abastecer os bacalhoeiros que salgavam o bacalhau nos seus porões para conservar o peixe pescado durante a viagem de regresso. Depois, em terras lusas, o lavavam e secavam ao ar livre com o sol do Algarve, Margem Sul do Tejo, Setúbal, Figueira da Foz, Aveiro e Viana do Castelo; i.e., zonas que também tinham salinas. Assim sendo, os bacalhoeiros enchiam-se nesses locais de “ouro branco”, navegavam 4227 km até às águas gélidas Canadianas de Terra Nova, pescavam o bacalhau, metiam-no dentro do sal e à chegada a Portugal, eram secos/curados pelas mãos das mulheres que impacientemente os esperava. Com o “ouro branco”, a cada partida ia também a imaginação de quem ficava e desejava uma vida melhor, mas a partir de 1953, uma importante comunidade de portugueses ganha coragem e emigra para o Canadá. Curiosamente, 61% destes, são justamente originários do arquipélago do primeiro navegador português em terras Canadenses; os Açores [7].
Durante a Segunda Guerra Mundial, os bacalhoeiros portugueses pintam-se de branco para assinalar a neutralidade de Portugal no conflito e com isso, evitar que seus barcos sejam afundados pelos nazis. Essa “Frota Branca”, como era conhecida, permitiu ininterruptamente alimentar o povo, e sua ideia, pelo prato nacional. A campanha em si, apesar de só dar prejuízo ao Estado, é na altura um sucesso: estima-se que um dos seus bacalhoeiros, de nome “Creoula”, lançado ao mar em 1937 e utilizado até 1973, tenha feito o equivalente a mais de vinte voltas ao mundo nas campanhas de pesca do bacalhau pelos mares da Terra Nova e Gronelândia que Portugal voltou nesses anos a navegar, com um nome que relembra a zona do globo por onde a sua conquista se focou [6]. Em 1957, Portugal consegue o feito de ser o primeiro produtor mundial de bacalhau salgado seco e só importa 20%. Nessa altura, o bacalhau seco salgado (chamado de pão do mar pelo povo) e o trigo, são os alimentos que mais pesam na estrutura alimentar do país.
A queda da ditadura chega em 1974, e com ela, a última frota de bacalhoeiros dessa Campanha vinda da Terra Nova onde uma estátua do navegador portugueses Gaspar Corte-Real, oferecida em 1965 por Portugal ao Canadá, continua erguida na capital de St John da Terra-Nova e num país que soube bem acolher e integrar os nossos emigrantes que muitos por lá ficaram.
De hoje em dia, muitas das salinas outrora construídas, encontram-se convertidas em museu do sal, em atividades piscatórias ou até mesmo, em arrozais, conforme é visto no baixo Mondego perto da Figueira da Foz. Assim sendo, pela sua história, a costa de uma nação fica para sempre marcada, assim como seus hábitos que se transformam em tradição. Contudo, a história inverte-se: o monopólio do bacalhau volta às mãos de quem lhe deu vida (i.e., dos Noruegueses, que atualmente nos vende 70% do nosso consumo [6]) e a sua conotação de alimento provinciano, estabelecido pelo Estado Novo, esvanece. O Bacalhau sai da banalidade, aumentando-lhe a qualidade, e o atual know-how da sua confeção, possibilita o tornar num prato exclusivo; desafiando a sua simplicidade e deixando cair a sua modéstia pelas mãos de chefs estrelados que o inova, sem pudor, renovando a identidade e o orgulho de ser Português.

Referências
[0] Bacalhau o nosso “Fiel Amigo”. Acedido em: 22, dezembro, 2023, em: https://congeladosmoreira.com/2021/03/30/bacalhau-o-nosso-fiel-amigo/
[1] Vikings. Acedido em: 21, dezembro, 2023, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vikings
[2] Portugueses começaram a pescar bacalhau na Terra Nova depois de um engano. Acedido em: 21, dezembro, 2023, em: https://www.publico.pt/2017/07/10/ciencia/noticia/portugueses-comecaram-a-pescar-bacalhau-na-terra-nova-depois-de-um-engano-1778368
[3] Tratado de Windsor (1386). Acedido em: 21, dezembro, 2023, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Windsor_(1386)
[4] Les explorateurs portugais. Acedido em: 21, dezembro, 2023, em: https://www.heritage.nf.ca/articles/en-francais/exploration/explorateurs-portugais.php
[5] Discover Canada – Canada´s History. Acedido em: 21, dezembro, 2023, em: https://www.canada.ca/en/immigration-refugees-citizenship/corporate/publications-manuals/discover-canada/read-online/canadas-history.html
[6] História do Bacalhau. Acedido em: 22, dezembro, 2023, em: https://www.visitlisboa.com/pt-pt/lisbon-stories/rota-do-bacalhau-13/historia-do-bacalhau-21
[7] Imigração portuguesa no Canadá. Acedido em: 21, dezembro, 2023, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_portuguesa_no_Canad%C3%A1

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