Depois de distribuir alegria, com a beleza apresentada durante o período pascal, hoje levamos-lhe pela escrita a viajar até onde encontramos um dos mais belos sentimentos que possamos sentir, e que culmina na perfeição com a renovação do nosso ser celebrada durante o período pascal: a paz interior; uma paz que o faz gostar de estar consigo mesmo e em simbiose com a natureza que o rodeia.
Chegamos à ilha de São Miguel, nos Açores. A neblina, recebe-nos com mistério e timidez no desvendar da beleza da sua ilha, que em alguns momentos, deixa o sol transparecer, para que possamos relatar o seu esplendor transportando-lhe pela escrita numa visita que termina com o registo da sua história que não pode ficar esquecida.
Visita à Ilha de São Miguel
Casas brancas de cantarias pretas recebem-no em Ponta Delgada em dia nublado de temperaturas amenas, com um tapete formado por uma singular calçada portuguesa ornamentada com pedras brancas calcárias em fundo cinzento escuro de basalto a denotar a origem vulcânica da ilha de São Miguel, conforme as suas outras 8 congêneres, que a 1445 km de Lisboa forma, no meio do oceano Atlântico, o arquipélago dos Açores dando-lhe como capital, a cidade onde acaba de chegar.
A sua visita, inicia-se no cartão de visita de Ponta Delgada: nas portas da cidade, formada por três arcos brancos ornamentados com detalhes barrocos pretos em basalto a condizer com a arquitetura da Igreja de São Sebastião, que por um dos seus arcos, vislumbra. O facto da maioria das grandes individualidades da história Portuguesa já as ter atravessado, enaltece a sua passagem e empolga-lhe na visita do seu centro histórico que se inicia com a descoberta dessa igreja contruída pela devoção ao padroeiro da cidade, após na época medieval, a ilha ter sido assolada por uma grande peste. A igreja de São Sebastião, foi construída entre 1531 e 1547 [1], aquando a receção da sua magnifica cantaria branca, que ainda hoje, orna a sua entrada principal com um estilo manuelino a contrastar com as cantarias barrocas pretas em basalto que emolduram as suas portas laterais, assim como os seus restantes cantos arquitectónicos, conferindo-lhe dramatismo. O seu interior, que parece à primeira vista sóbrio, devido ao seu teto de madeira simples, tem seus tesouros escondidos nos seus diversos altares que se encontram ricamente decorados.
Depois de uma caminhada pelas ruas da cidade, visita o seu Mercado que o surpreende pela diversidade de produtos regionais comercializados: indo de bolachas, a manteigas, queijos e carnes, passando por legumes e frutas, todos eles têm proveniência açoreana. O seu olhar, pousa-se no seu célebre ananás, que orgulhosamente encontra-se disposto numa das suas bancas – uma vontade de conhecer esta ilha, que tanto teve que se reinventar ao longo dos tempos para conseguir sobreviver, nasce dentro de si, e uma viagem de carro se inicia pela sua descoberta:
A sua viagem inicia-se com a visita às estufas de ananases, o ex-libris das frutas dos Açores, em Fajã de Baixo, na plantação de Ananases de Augusto Arruda – uma antiga quinta de laranjas transformada no século XX para o cultivo de ananases [2] (na qual se cultiva a espécie Comosus L. Merril, variedade Cayenne, que adquiriu características organoléticas próprias no decurso dos cerca de 150 anos de produção em São Miguel [3]) dá a conhecer as suas enumeras estufas.
De regresso ao carro, a imagem do famoso panorama publicitário dos Açores vem-lhe à memória, dando-lhe a ideia de até ele se dirigir para assim também conhecer a zona Oeste da ilha. Uma imersão pela apreciação das suas diversas lagoas e miradouros o deixa encantado: começando no Miradouro do Pico do Carvão para algumas fotografias tirar, passa pelo caminho até ao Miradouro da Vista do Rei, por várias lagoas que enganam-lhe os sentidos fazendo-lhe questionar se encontra-se de facto diante do panorama inicialmente imaginado. Contudo, chegando ao Miradouro da Vista do Rei, as suas dúvidas dissipam-se: como o seu nome o sugere, uma vista privilegiada sobre a Caldeira das Sete Cidades, o deixa a admirá-la como se nunca a tivesse ainda visto em fotografias devido à sua tamanha beleza; uma paisagem de duas lagoas irmãs, recolhidas num vale verdejante delimitado pelo azul do céu e com hortências a brotarem dos seus ramos para como que lhe compor o panorama, dá-lhe a vontade de até ela descer para de mais perto a poder conhecer. Desce até à Lagoa das Sete Cidades, quando nisto, um lindo raio de sol realça-lhe a beleza onde patos e vaquinhas o saúda em liberdade sem mais ninguém encontrar. A natureza o envolve, e uma sensação de bem-estar encontra, e é assim que, com um delicioso arroz de tamboril de açafrão termina o dia sonhado com o próximo.
No dia seguinte, o seu passeio inicia-se com a visita à Lagoa das Furnas onde uma pequena capela neogótica de conto de fadas destaca-se à sua chegada rodeada pelo misticismo do seu cenário: erguendo-se no meio da vegetação junto à Lagoa, a sua beleza, como que por magia, esvanece e reaparece na passagem de um denso nevoeiro, que apesar de tomar conta do vale onde se encontra, não apaga da sua memória a sua beleza. Uma pesquisa inevitável é então feita para sua origem conhecer e o romantismo da sua história nos leva a aqui relatar: essa capela privada, que traz o nome de Nossa Senhora das Vitórias, data de 1882, e foi construída por um rico botânico açoriano para homenagear a sua esposa que tragicamente havia morrido. Atualmente, o casal encontra-se ali sepultado, e seus mais curiosos visitantes, recordem-no quando desvendem o seu mistério[4].
Em lado oposto, nessa tranquila Lagoa delimitada por belas arvores, de um plano e acinzentado terreno emanam enigmáticos fumos exaltando o cheiro a enxofre – recorda que por baixo da beleza admirada, um vulcão se encontra desde 1630 adormecido. De facto, o que acaba de observar, são nada mais do que pequenas caldeiras vulcânicas, cheias de água das chuvas, a entrarem em ebulição e a esfumaçarem-se pelo calor do seu solo [5]. Aliás, é nesse mesmo subsolo, que poços foram pelos homens criados, para produzirem fornos naturais onde a iguaria da localidade é cozinhada: o cozido à portuguesa, que conforme manda a tradição, acaba por também provar – não sabendo a enxofre, nem a grandes temperos, fica a experiência por contar.
Após um passeio pelo parque Terra Nostra, para o almoço desgastar, ruma à instância termal da Poça da Dona Beja [6] para nas suas águas férreas, naturalmente aquecidas e de propriedades medicinais, revitalizar-se: uma experiência única ao ar livre, onde uma moderna e bonita instância termal encontra-se contruída para com a natureza se confundir, estimula os seus sentidos – só assim conseguiria ganhar coragem para, em dia nublado, com uma temperatura ambiente em torno dos 17ºC, andar de fato de banho ao ar livre para depois experienciar um banho de imersão em águas a alcançarem uma média de 39ºC … que num instante, aquecem-lhe o corpo e a alma. Daqui sai com uma pele suave e um ar repousado, satisfeito com tudo o que já viu e fez.
Regressa ao hotel, quando nisto, avista pelo caminho a fábrica de Chá da Gorreana que faz-lhe parar – de facto, depois do seu banho termal, nada lhe cai melhor do que uma boa chávena de chá.
No meio de uma plantação de chá, formada por uma série de sebes bem podadas com cerca de 1 metros de altura, a fábrica de chá da Gorreana encontra-se para o receber e gratuitamente o levar a provar um dos seus maravilhosos chás, onde o chá verde Hysson, é a nossa eleição; por possuir um aroma delicado, mas muito rico em taninos e antioxidantes – ideal para complementar o banho revitalizante que acaba de fazer.
A vontade em apreciar o seu chá em simbiose com a natureza envolvente o leva a o querer saborear no meio da sua plantação, onde chávena na mão, caminha lentamente pelos seus campos em direção ao mar até se sentir em comunhão com este. Pouco a pouco, o barulho dissipa-se e só o vento lhe sussurra. Pára, toma um gole do seu chá virado para o mar, apreciando os campos que nele desaparecem, assim como todos os seus pensamentos, quando nisto, a gratidão do momento enche-lhe a alma e uma paz interior toma conta de si.
História Económica e de Emigração dos Açores passando pela migração das baleias – assuntos que parecem dissonantes, mas que se interligam e formam parte da interessante história dos Açores
O século XIX é definido como a época áurea da cidade de Ponta Delgada e da ilha de S. Miguel, pela prosperidade económica, graças à exportação de citrinos para o Reino Unido, e pelo cosmopolitismo, graças à fixação de numerosos comerciantes estrangeiros, nomeadamente de inúmeras famílias judaicas [7]. Em meados do século XIX, dá-se o declínio da produção de laranjas, fazendo com que muitos dos pomares micaelenses se transformassem, no final do século XIX, nas únicas plantações europeias de chá para fins industriais graças aos ensinamentos deixados por um mestre e um ajudante chinês contratado em Macau [8]. Contudo, é pela a caça à baleia, mais propriamente a do cachalote, que os Açores, especialmente a ilha do Pico, gera receitas generosas através da venda de seus subprodutos. De facto, em tempos onde a lâmpada elétrica não existia, o óleo de baleia era muito procurado para alumiar, fazer velas e não só: esse óleo extraído da carne da baleia derretida, também servia para fazer sabão e margarinas; dos intestinos, era extraído um fixante para os perfumes chamado de “âmbar pardo” que atingia preços elevados; dos ossos, fazia-se espartilhos, pentes, escovas e artesanato e com os restos, fazia-se fertilizantes para a terra [9].
Apesar do apogeu do negócio da caça à baleia só se registar nos Açores em 1955, com a exportação de seus subprodutos para todo o mundo, seus ensinamentos, já datam dos finais do século XVIII, pelos navios baleeiros da Nova Inglaterra, que recrutavam nos Açores tripulantes para as suas longas campanhas onde, entre outros, ensinavam a extração dos óleos desses gigantes mamíferos. Muitos portugueses partiram nesses navios e alguns, acabaram por fazer da Nova Inglaterra (i.e., da costa norte-este dos Estados Unidos da América composta pelos estados do Maine, New Hampshire, Vermont, Massachusetts, Rhode Island e Connecticut) a sua casa, ficando assim, durante muitas décadas, o principal destino de emigração dos Açorianos que ainda hoje conseguimos identificar, e com mais incidência, nas ruas de Fall River do estado de Massachusetts: com frequência avista-se pelas suas ruas placas publicitárias com apelidos de comerciantes lusófonos onde 46% dos seus residentes, afirmam ser de origem portuguesa, e seus mais fervorosos, até fazem questão de nessa longínqua terra, também celebrar anualmente um dos principais testemunhos de fé do Povo Açoriano: o Divino Espírito Santo – como para suas origens não esquecer [10]. Esquecimento esse, que agora se torna ainda mais difícil, já que a Câmara Municipal de Ponta Delgada deu em 2006, uma réplica, em tamanho real, das portas da cidade de Ponta Delgada à cidade de Fall River, que hoje se encontra erguida junto à bandeira Portuguesa e Americana para relembra, para todo o sempre, o seu frutífero intercambio [11].
Não obstante, ao nosso ver, o mais importante da sua história recente se regista em 1986, quando não somente Portugal entra para a Comunidade Económica Europeia, mas também se ergue na defesa das baleias, sendo um dos primeiros países a por fim à barbárie que era a sua matança, proibindo assim por lei, a caça à baleia em território Português. De hoje em dia, a perseguição desses cetáceos continua, não para os matar, mas sim, para os observar sem os perturbar para melhor os entender, já que os Açores está na rota migratória das baleias que navegam milhares de quilómetros para passar o verão no Atlântico Norte e o inverno nas águas Equatoriais, fazendo escala nos Açores, ao largo da ilha do Pico, para se alimentarem e se orientarem antes de prosseguirem viagem [12].
A observação desses mamíferos tem trazido muitos cientistas e turistas aos Açores, não somente atraídos pelos seus gigantes mamíferos, como é o caso da baleia azul, por ser o maior animal do mundo podendo chegar até aos 30 metros de comprimento [13], mas também pelas suas lindas paisagens. Contudo, a sua economia baseia-se atualmente, sobretudo, nos serviços, na agricultura (com forte incidência na produção leiteira) e na pesca [14]. Algo que bem se identifica quando rodeado de mar, dá por si a admirar as suas encostas onde vacas leiteiras salpicam-lhe o panorama de preto e branco, como as suas escassas casas, num verde prado que se transforma no azul do mar onde a sua brisa, no topo das suas colinas, só lhe fala, convencendo-lhe que se encontra num paraíso no meio do Oceano Atlântico.
Fotos tiradas durante a nossa viagem













Referências:
[1] Igreja de São Sebastião. Acedido em: 17, abril, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_de_S%C3%A3o_Sebasti%C3%A3o_(Ponta_Delgada)
[2] Plantação de Ananases Arruda. Acedido em: 17, abril, 2024, em: http://www.visitpontadelgada.pt/pages/773/?geo_article_id=2564
[3] Ananás de São Miguel: um embaixador açoriano. Acedido em: 17, abril, 2024, em: https://www.sabado.pt/c-studio/especiais-c-studio/acores/detalhe/ananas-de-sao-miguel-um-embaixador-acoriano
[4] Capela da Nossa Senhora das Vitórias coisas que precisas de saber quando visitares pela primeira vez. Acedido em: 17, abril, 2024, em: https://www.portugaldenorteasul.pt/10555/capela-de-nossa-senhora-das-vitorias-coisas-que-precisas-de-saber-quando-visitares-pela-primeira-vez
[5] Lagoa das Furnas: A joia da coroa da ilha de São Miguel. Acedido em: 17, abril, 2024, em: https://futurismo.pt/pt/blog/lagoa-das-furnas-a-joia-da-coroa-da-ilha-de-sao-miguel/
[6] A poça – Thermal Paradise. Acedido em: 03, abril, 2024, em: https://pocadadonabeija.com/about/
[7] Ponta Delgada. Acedido em: 03, abril, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ponta_Delgada
[8] Plantação e produção do chá dos Açores. Acedido em: 17, abril, 2024, em: https://agendacores.pt/plantacao-e-producao-do-cha-dos-acores/
[9] Baleeiros açorianos: a história que não se repete. Acedido em: 16, abril, 2024, em: https://ensina.rtp.pt/artigo/baleeiros-acorianos-a-historia-que-nao-se-repete/
[10] Bem-vindo a Fall River: a cidade mais portuguesa da América. Acedido em: 16, abril, 2024, em: https://www.oportavoz.com/bem-vindo-a-fall-river-a-cidade-mais-portuguesa-da-america/
[11] Portas da Cidade. Acedido em: 16, abril, 2024, em: http://www.visitpontadelgada.pt/fazer/visitar/patrimonio-arquitetonico/arquitetura-civil/geo_artigo/portas-da-cidade
[12] Baleia-azul: ver o maior cetáceo em migração. Acedido em: 17, abril, 2024, em: https://ensina.rtp.pt/artigo/baleia-azul-ver-o-maior-cetaceo-em-migracao/
[13] Baleia-azul. Acedido em: 17, abril, 2024, em: https://mundoeducacao.uol.com.br/biologia/baleia-azul.htm
[14] Estudo para a Comissão REGI – A situação económica, social e territorial dos Açores (Portugal). Acedido em: 17, abril, 2024, em: https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/BRIE/2017/601971/IPOL_BRI(2017)601971_PT.pdf
Créditos:
Texto e fotos da Sanperio by Isabel

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