A 40 km a sul de Lisboa, um ferry boat o espera no cais de Setúbal. O som do deslizamento do barco pelas águas do estuário do Sado, o vento a passar-lhe pelo cabelo e o sol a aquecer-lhe a pele e a alma o faz sorrir – está finalmente de férias. A sua mente, relembra-lhe que só são 3 dias e o soar de uma buzina, traz-lhe de volta à realidade: encontra-se ainda no transito a tentar sair da cidade.

Venha viajar connosco pela escrita a este pequeno paraíso; tão perto de muitos portugueses, mas habitualmente longe das ideias de escapadinhas, apesar de ser, ao nosso ver, uma excelente opção para quem precisa de espairecer num fim de semana prolongado, mas está demasiado cansado para muito conduzir até ao destino.

Visita a Tróia

O desembarque no Cais Sul da Península de Troia, dá-lhe a sensação que acaba de chegar a uma remota ilha pelas poucas pessoas e casas que avista na sua floresta autóctone de pinheiros que se ergue em dunas de areia. O seu ideal paradisíaco, ainda o faz procurar por uma palmeira, ou outra vegetação mais tropical, mas a falta, o faz perceber que se calhar, até a semelhança encontrada com Miami tenha sido uma simples miragem avistada durante a sua travessia, naquela que é considerada, uma das mais belas baías do mundo [0]. Contudo, o engano não o demove, e com entusiasmo, enverga na descoberta do seu destino.

O seu destino, é um aldeamento turístico à beira mar plantado que se encontra bem cuidado a complementar a arquitetura moderna dos seus diversos edifícios: chegou ao resort de Tróia, que acaba numa pequena marina, com alguns cafés e restaurantes, onde um alto edifício de varandas curvas refere-se ao mar que o rodeia, tornando-se no ex-libris arquitetónico da península; formando a miragem do novo mundo aos que de longe a vislumbra – sem demoras, faz check-in nesse hotel que promete evasão.

Um moderno hotel, com o design que se intitula, o recebe com uma das obras da artista plástica Joana Vasconcelos no seu lobby. Sobe até aos seus aposentos num elevador envidraçado e abrindo a porta do seu quarto, uma magnifica vista sobre o mar tira-lhe o folego: os intensos tons de azul que dela emanam em dia solarengo, destacam-se dos tons neutros e claros do quarto, emoldurando assim, a paisagem com um design contemporâneo envolta de um deleitoso perfume de ambiente da marca Castelbel.

Após relaxar na piscina de tratamento do hotel, caminha até à praia que do seu quarto admirou, chamada de Tróia-Mar, onde por umas lindas dunas de pinheiros baixinhos passa até chegar a uma praia de areia branca e fina. Um sereno mar, de baixa profundidade, o surpreende pelas suas águas cristalinas e límpidas a formarem um magnífico dégradé de cores; uma lista turquesa, muda-se para um azul marinho que ao longe se transforma em tons de verde de vegetação montanhosa, para por fim, alcançar o azul do céu – encontrou o paraíso.

Pensar na biodiversidade deste estuário não é seguramente uma fantasia, já que golfinhos podem ser avistados, e pensar na segurança e limpeza deste destino, é um descanso, já que é muito bem frequentado. Contudo, é uma escolha refutável por os que gostam de animação noturna acompanhada de uma grande seleção de restaurantes para frequentar, mas considerando o fim de semana prolongado que nos espera e a necessidade de descanso e evasão que por este mês se possa sentir, este sereno pedaço de paraíso poderá ser do que precisa e até poderá nunca mais o esquecer, porque muito provavelmente, se tornará numa das suas preferidas praias de Portugal – pelo menos, é o que nos aconteceu.

A Importância de Tróia na Antiguidade

Passando pelo posto de turismo de Tróia, uma imagem de ruínas romanas atraiu o nosso olhar aguçando a curiosidade – mas o que teria atraído os Romanos para estas paragens? – perguntamo-nos, pegando num dos pequenos panfletos que ali se encontravam. A sua leitura, levou-nos a descobrir parte da remota história da península, e a tropeçar na de um condimento, que até então pensávamos ser de origem asiática. De que condimento estamos a falar? É o que iremos de seguida desvendar!

A localização de Tróia, a abundante pesca, a excelência do sal da região e a disponibilidade de ânforas (i.e., de olarias que vinham da margem direita do rio Sado), atraiu o interesse dos Romanos para ali estabelecerem entre o século I e VI d.C. [1], um dos maiores complexos fabris de conservas de peixe do Império Romano e do Mediterrâneo Ocidental [2]. Mas o mais fascinante, foi, ao nosso ver, descobrir que onde nos encontrávamos, tinha-se outrora produzido um dos condimentos mais consumidos em todo o Império Romano – a nossa imaginação, fluiu com a visão desse condimento, cuidadosamente trazido de Tróia num decorado envase de barro, acabar à mesa de um grande Imperador de Roma realçando-lhe com satisfação o sabor de um prato que, de outra forma, seria insipido e desgostoso. Uma visão que poderá não ser um desvaneio porque, esse condimento chamado de garum, obtido através da fermentação em salmoura das vísceras dos peixes azuis ali pescados (i.e., atum e cavala), resultava num molho salgado e nutritivo que na época substituía o uso do sal na confeição dos alimentos. Assim sendo, parecido com o atual molho de peixe asiático, esse condimento conferia durante a idade antiga o sabor umami aos pratos e deu origem ao molho de peixe que hoje conhecemos na culinária asiática.

Apesar da sua popularidade, o seu desuso na Europa deu-se com o aumento das taxas impostas sobre o sal e dos corsários que, com a queda do Império Romano, saqueavam com maior facilidade as fábricas que o produzia [3]. Contudo, em Portugal, ele consegue resistir ao passar do tempo: em 2021, a empresa Lisboeta Can the Can, reproduziu num dos tanques de salga de peixe de Tróia, entre 200 a 300 litros desse condimento, revitalizando uma história que, como as suas ruínas, resistia há mais de 15 séculos ao esquecimento [1].

Fotos tiradas durante a nossa escapadinha

Referências:

[0] Setúbal está com o turismo a crescer 18% e a despertar o interesse de estrangeiros em comprar casa na região. Acedido em: 06, Junho, 2024, em:  https://expresso.pt/50anos/2023-08-28-Setubal-esta-com-o-turismo-a-crescer-18-e-a-despertar-o-interesse-de-estrangeiros-em-comprar-casa-na-regiao-53917e0a

[1] Ruínas romanas de Troia. Acedido em: 04, Junho, 2024, em:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Ru%C3%ADnas_romanas_de_Troia

[2] Estação Romana de Tróia. Acedido em: 04, Junho, 2024, em:  https://www.cm-grandola.pt/pages/666?poi_id=137

[3] Fish Sauce: An Ancient Roman Condiment Rises Again. Acedido em: 04, Junho, 2024, em:  https://www.npr.org/sections/thesalt/2013/10/26/240237774/fish-sauce-an-ancient-roman-condiment-rises-again

Créditos:

Texto e fotos de autoria própria – tiradas durante a nossa visita a Tróia e estadia no Tróia Design Hotel.

Nota:

Este artigo não é uma publicidade, pelo que não existe conflitos de interesses, nem subvenções, que possam ter enviesado a descrição acima apresentada já que foi feita por livre e espontânea vontade e é autenticamente baseada na experiência da Sanperio by Isabel aquando a sua visita para poder espairecer a mente dos seus leitores e dar-lhes ideias.

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