Quando pensamos em políticas de inclusão social, que fomentem a abertura de espírito pela aceitação de outras nacionalidades e crenças na nossa sociedade, muitos as aceitam com naturalidade, acreditando que elas são a consequência da evolução das mentalidades e da sua adaptação aos tempos modernos, mas serão elas assim tão modernas? Desde quando a aceitação, por exemplo, de outras religiões na Europa existe? Infelizmente, quando recuamos no tempo e descobrimos o que a história nos diz, as mentes que se vangloriam pela modernidade das suas ideias, se destabilizam, e reduzidas à normalidade, se questionam como é possível então esses assuntos ainda permanecerem imutáveis nas mentes mais resistentes à mudança. De facto, recuando até à antiguidade, em tempos em que a Europa nem se quer existia, e muito menos os Estados Unidos da América, o império romano politeísta, que tinha como religião oficial a adoração do pai dos céus (Júpiter), do deus da guerra (Marte) e da deusa da sabedoria e justiça (Minerva), declara em 313, através do Édito de Milão, que doravante seria neutro em relação ao credo religioso dos seus cidadãos, acabando oficialmente com a perseguição que fazia aos seus cidadãos, especialmente, cristãos, que na época colmatava apenas 10% da população [0].
Apesar de ter sido na época uma manobra política, para enfrentar a decadência do vasto império romano, que ia da península ibérica até ao meio oriente, passando pelo Norte de Africa, deu ignição às políticas sociais de inclusão. Contudo, não tenhamos ilusões, em termos de direitos humanos, esses tempos estavam muito aquém do aceitável: havia muita desigualdade social, trabalho forçado, pilhagem e escravidão dos povos das terras conquistadas.
Foi nesse contexto, nas fronteiras do império romano, na atual Hungria, que em 316 um generoso menino chamado de Martinho de Tours nasceu no seio de uma família pagã. Esse menino, mais tarde elevado à condição de São Martinho, acaba por crescer em Itália, onde seguindo os passos do seu pai comandante do exército romano, torna-se aos 15 anos de idade também militar viajando por todo o Império Ocidental.
Se viajar molda a mente do viajante, para Martinho de Tours, o ato lhe mudou completamente a vida e teve repercussões. De tal ordem, que podemos até dizer que de uma certa forma, continua a também influenciar gerações atrás de gerações sem muito nos apercebermos. Como assim? Conheça a lenda e a história desse Santo que em breve se festeja por toda a Europa, assim como o seu contributo para a Europa que hoje conhecemos.
História e Legado de São Martinho
Num frio e tempestuoso dia de outono, Martinho de Tours percorria o seu caminho montado a cavalo, quando nisto, deparou-se com um mendigo cheio de fome e frio. Conhecido pela sua generosidade, tirou a sua capa e com a espada, cortou-a ao meio, cobrindo o mendigo com uma das partes. Mais adiante, encontrou outro pobre homem cheio de frio e ofereceu-lhe a outra metade.
Sem capa, Martinho de Tours continuou a sua viagem ao frio e ao vento quando, de repente, e como por milagre, o céu se abriu, afastando a tempestade. Os raios de sol começaram a aquecer a terra e o bom tempo prolongou-se por cerca de três dias [1] como agradecimento dos céus.
Desde essa altura, todos os anos, por volta do dia do funeral de Martinho de Tours (i.e., por volta do dia 11 de novembro), dias de calor curiosamente surgem, como para nos relembrar do calor que se sente no coração quando se dá ou se recebe ajuda, como quando Martinho de Tours ajudou com bondade e generosidade quem mais precisava, independentemente das suas crenças, já que nessa altura, ele próprio era pagão.
É dito que nessa noite, Martinho de Tours terá sonhado com Jesus a agradecer-lhe pelo gesto vestindo parte da capa que tinha dado ao mendigo . A partir de aí, se converteu ao cristianismo, tornou-se discípulo de Santo Hilário, abandonou o exército, formou-se bispo de Poitiers (uma zona a norte/oeste de França) e mais tarde, fundou perto de Poitier, em Ligugé, um dos primeiros mosteiros da Europa. Em 371, foi ordenado bispo de Tours e depois também fundou o mosteiro de Marmoutier onde viveu em reclusão, depois de ter sido um pregador incessável que ajudou a disseminar a religião católica e atrair milhares de fiéis pelos seus variadíssimos milagres [2]. Algo que parece ter dado frutos, já que em 380, o imperador Teodósio, troca o politeísmo da altura pelo cristianismo que até hoje moldou gerações atrás de gerações europeias.
De facto, findo esses anos todos, o legado de outros tempos permanece na Europa: o catolicismo continua, assim como o respeito pelas outras crenças religiosas, mostrando que a inclusão social de diversas religiões e por consequência, culturas, é muito mais do que uma simples política, mas sim, uma mentalidade intrínseca a quem se diz ser Europeu?
Referências:
[0] Édito de Milão. Acedido em: 8, novembro, 2024, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89dito_de_Mil%C3%A3o
[1] Lenda de S. Martinho. Acedido em: 8, novembro, 2024, em: https://www.infopedia.pt/artigos/$lenda-de-s.-martinho
[2] A história do São Martinho: castanhas porquê?. Acedido em: 8, novembro, 2024, em: https://observador.pt/2014/11/11/historia-sao-martinho/
Créditos:
Texto produzido pela sanperio by isabel
Foto/pintura de destaque:
São Martinho compartilhando seu manto, obra pintada em 1625, por Sir Anthony van Dyck

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